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Dezenove de março, faço quarenta e cinco anos.estou envelhecendo, mais sinceramente, não me conformo.
Ainda me sinto aquele adolescente que colocava colheres acima da televisão,para entortá-la com o poder da mente do Uri Geller.
Bons tempos aquele,eu era feliz e não sabia!
Francamente!...tanta gente morrendo jovem,porque, logo eu, tenho de morrer velho?
Tá certo, muitos chegam aos oitenta,noventa,com a saúde de um guri e com a beleza da juventude,mas eu,já ando fazendo check-up com médico legista.
As mulheres em minha família sempre tiveram longevidade.Os homens,nem tanto.Acho que isto explica em parte minhas reservas.
Minha avó por parte de pai, nasceu em 1900 e fez a passagem à muito custo,em 2001.
As vezes quando eu lhe perguntava porque ela não diminuía o consumo do cigarro, e da cerveja.
-Meu filho,não fume,não beba,pra morrer com bastante saúde.
Ou então quando eu perguntava-lhe, brincando, se ela não ia mesmo, embarcar no taxi do além.
-Meu filho eu já enterrei teu bisavô,enterrei teu avô,enterrei teu pai e se,tu bobear...
Minha outra avó ainda vive,passada está já dos noventa.Esta ,tenho de estar sempre de olho.
Estes dias cheguei em sua casa,onde mora só,estava ela de quatro pé ao chão.
-O que tu ta procurando vó?
-Nada,caí a duas horas,estou tentando levantar! – respondeu rindo.
Aquilo não ajudou muito, a melhorar meu conceito sobre a velhice.
Esta sabe, o quanto abomino a idéia de envelhecer.Sempre que pode não me deixa esquecer.
Todas as quartas-feiras,comecinho da tarde,o telefone toca:
-João,tu leva a vó lá na melhor idade? – pergunta ela.
Acho que ela faz isto só para me sacanear,mas como um bom neto,pontualmente as 13:45,lá estou eu a lhe pegar.
Com tanta violência,não me perdoaria se algo acontecesse a ela,um assalto,um estupro,vai saber!...
Chegando ao clube,deixo-a observar do carro o movimento,ela parece sempre querer se certificar, se seu parceiro da semana anterior,esta semana,não “dançou” literalmente.
E do jeito que vai, a cada semana um associado entrando em óbito, acho que já,já,terão de instalar um placar eletrônico.
Agora,cá para nós,eles sabem se divertir.Só contratam bandas de primeira,dá gosto de ver.
Pena que do começo ao fim só compasso 3X4...valsa,pra quem não lê partitura!...acho que se rolasse um sambão,saía tudo da geometria.
As vezes até sinto vontade de ficar e entrar...mas enquanto eu puder,prefiro evitar cemitérios e terceira idade,aquele negócio:
Quem não é visto,não é lembrado!
Agora, o governo federal também resolveu virar engraçadinho,lançando a campanha que incentiva o uso de camisinha,pelo pessoal da terceira idade...por favor!!!...eles estão falando de nossas avós,avôs...
Fico a imaginar alguém já no inicio de um Parkinson,tentando vestir uma camisinha...não sei,olhado de longe,parecerá um maestro tarado,regendo uma bandinha.
Meus filhos não perdem uma piada.
-Ô pai,tu vai levar a bisa no Pelanka's Club hoje?
Eu fico irado,espumando, aí vem a Aninha,minha netinha, para me consolar termina de esculhambar.
-Fica bravo não vovô, quando tu ficar velhinho, tambem vou te levar pra balada!
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