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Orlandinho era um cara versátil. Taxista de profissão, completava sua renda, animando festas e bailes, com seu grupo musical.
Era uma espécie de coringa para classe “D” e “E”. Quando o dinheiro não dava para contratar nada que prestasse, era vez do “Orlandinho e seu conjunto”.
A elite da cidade tinha cacife para: Fábio Junior, Roberto Carlos; os demais sem opção disputavam Orlandinho a tapas. Para quem tinha o mínimo gosto musical, ele não fazia musica, fazia chantagem.
Na bateria, o Capivara, excelente baterista, não fosse as inúmeras entradas e saídas do hospital psiquiátrico, teria tido uma brilhante carreira.
No baixo e na guitarra, os “Ferruginhas”, irmãos gêmeos. Idênticos em tudo, incluindo aí, na falta de intimidade com os instrumentos.
No acordeom Marcelinho, tratado por “Marcelinho Alquimista”, conseguia transformar qualquer musica numa m...
No teclado e fazendo o vocal, ele, Orlandinho.
Para o povo pouco importava. Aquele negócio: não tem tu, vai tu mesmo!, era só não prestar muita atenção na musica, que dava tudo certo.Até porque, de musica mesmo, era pouco tempo.
Naquela época aqui, era difícil terminar um bailão no zero á zero. Sempre dava confusão, podia até não morrer ninguém, mas pelo menos um na U.T.I, podia-se contar.
Orlandinho cantava mal, desafinava até andando de bicicleta. Sua relação com seu instrumento então,era muito complicada.
Ele era, o que os músicos chamam de pé-de-galinha, quer dizer, todo o pianista, gaiteiro, tecladista, dedica uma vida, apurando a mecânica do dedilhado, praticando escalas maiores, menores, arpejos, trinídos, cromáticas, utilizando-se de todos os dedos, de ambas as mãos, e muitas vezes, como no caso do piano, até mesmo os pés.
Orlandinho não, sua mecânica envolvia apenas os dedos, indicador, médio e anelar da mão direita, a esquerda servia para segurar um copo de whisky e eventualmente um cigarro.
Quando iniciava a musica, as atenções se voltavam para os irmãos Ferruginhas, que se posicionavam lado a lado a frente da bateria com seu baixo e a guitarra.
Era certo que dali a pouco, errariam uma nota, e no primeiro rolo na bateria que o Capivara fizesse, aproveitava para acertar também, com as baquetas, ou a cabeça de um, ou a do outro.
Ali faziam um intervalo forçado de alguns minutos, para acertarem as diferenças, prosseguindo a seguir.
O repertório era o mesmo desde o nascimento do grupo, se lhe pedissem alguma musica que ultrapassasse a época dos Golden Boys, ficava sem atendimento.
Assim transcorriam os Bailes com “Orlandinho e seu conjunto”. O grupo lutando para manterem, ao menos, o mesmo tom, e Orlandinho executando seu instrumento com sua técnica pé-de-galinha. Quando uma pausa permitia-lhe, dava uma beiçada no trago, ou uma tragada no cigarro.
Um dia, num destes bailes do Orlandinho, um rapaz chega meio acanhado, se diz musico e pede-lhe uma canja.
Orlandinho prontamente sai, permitindo-lhe que tocasse um pouco seu teclado, e foi-se para a copa, beber e fumar.
O rapaz com uma técnica apurada, executava aquele instrumento com a habilidade de um concertista. Seus dedos eram como raios, não rebatia uma nota, era a perfeição. Todos os dedos atuando em uma mecânica perfeita.
Nisto, um fã do Orlandinho, encosta-se no balcão da copa e rindo-se fala ao garçon:
-Que tecladista podre, olha lá!...O que o Orlandinho faz com três dedos, ele precisa de dez pra fazer!
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