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MORTE MORRIDA Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por João Bravo
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Dom, 07 de Dezembro de 2008 12:05
Existia aqui na cidade, um político do tipo profissional, que eleições atrás de eleições conseguia a reeleição, mesmo sem nada,absolutamente nada, fazer pelo povo.

Benicio avilar, como se chamava, era um próspero empresário do ramo imobiliário, dono de muitos imóveis e fazendas.

Nunca deixava de vaselinar um eleitor, mesmo após as eleições, talvez fosse este seu segredo do sucesso.

Figura carimbada em todos os eventos que lhe proporcionasse um contato direto com o povo, tratava a todos como se tivesse acabado de acordar a seu lado.

Jamais se abalava, tinha sempre uma resposta na ponta da língua, para qualquer situação que se apresentasse. Tinha o biótipo de político perfeito.

Em torno de sua figura, sobrevivem uma infinidade de acontecimentos cômicos, que não sei bem, se lendas ou fatos verídicos.

Uma delas, é que uma de suas secretarias na câmara de vereadores, ao tempo que ele assumiu a presidência da casa, ao receber dele, a ordem para emitir a um vereador cheque no valor de seiscentos reais, para cobrir diferenças das diárias, ela pergunta:

-Vereador Benicio, seiscentos é com dois “S” ou “Ç”?

-Sei lá, faz o seguinte, faz dois de trezentos. – responde ele.

Mas não creio muito que esta tenha partido dele, afinal ele não me parecia tão burro assim. Mas vale como piada.

Agora, uma coisa era verdadeira, ele era aquele tipo de pessoa que adorava velório. Completamente viciado, não perdia um.

Se alguém morresse, podia contar que não demorava muito, lá estava o Benicio Avilar.

A sua liturgia fúnebre, era sempre a mesma: primeiro ficava fora da capela, certificando-se quem era o morto, quem eram os parentes, a viúva ou viúvo, apertava a mãos de todos, e só então entrava.

Depois dirigia-se direto a viúva ou viúvo, dava-lhe os pêsames, fazia a pergunta habitual, ou seja qual o motivo da morte do de cujos, e postava-se a ouvir com o braço direito por sobre a barriga, e o esquerda apoiando o queixo, típica pose do intelectual.

Logo em seguida passava a cumprimentar a todos no interior da capela, indo embora na seqüência. Quando o falecido era muito importante aí sim, acompanhava o cortejo até o cemitério.

Só não disputava a alça do caixão, aquilo não combinava com sua personalidade. Trabalhar já era raro, serviço braçal então, nem pensar.

Outra peculiaridade era não entrar em assuntos políticos, ou mesmo, qualquer outro assunto que pudesse ser polêmico nestas ocasiões.

Certa feita, ao passar pela capela, coisa que fazia habitualmente, como que para ter certeza que nenhum finado lhe escapasse ao crivo, viu movimento, parou o carro desceu, cumpriu todo o protocolo de costume, e se dirigiu a viúva:

-Era novo seu marido não? – disse o vereador.

-Sim! – Disse a viúva – iria fazer 36, daqui a três meses!

-Que lástima!!!...Morreu do que senhora? – curioso pergunta.

-Pneumonia! – diz a viúva chorando.

-Dupla ou simples? – pergunta.

-Simples – responde a viúva.

-Ainda bem! – conclui ele.

Em uma semana generosa em matéria de óbitos na cidade,dois cidadãos fizeram a passagem no mesmo dia.O primeiro morte natural; o segundo, havia entrado em luta corporal com um desafeto, numa cancha reta, acabando por findar na ponta de uma peixeira, por causa de uma discussão em torno dos cavalos.

O cemitério era separado, uma parte para protestantes e a outra para católicos, cada qual com a entrada em uma parte.

Como a morte natural era regra na cidade, quando alguém partia desta para melhor de forma não convencional, chamava muita atenção, principalmente ao dependente de velório, como era o caso do vereador.

Marcado para velarem-se nas capelas do cemitério, lá se foi o Benicio.

Chegando a frente da capela, dirige-se ao primeiro que encontra.

-Já chegou o corpo? – pergunta.

-Sim vereador, já trouxeram o rapaz. – respondeu.

-Mas este aí, é o de morte morrida ou morte matada? – completa o Edil.



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MORTE MORRIDA
Dom, 07 de Dezembro de 2008

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Última atualização em Seg, 08 de Dezembro de 2008 07:08
 
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