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Não gosto de andar de ônibus, ou coletivo, pra ser politicamente correto.
Nada tem a ver com orgulho, para mim é mais uma questão econômica.
Em um país, que as pessoas se incomodam a cada minuto e de graça, para que eu vou pagar, não é mesmo?!
Também tem o fator trauma. Um fato negativo que me marcou muito, literalmente, aos dezesseis anos.
Quando guri, em minha cidade, costumava observar maravilhado aos garotos mais velhos, trabalhando como cobradores em carroções, chamados dindinho.
Eram jeepes da segunda guerra reformados, que puxavam carroções abertos, com seus bancos de madeira, com capacidade pra mais de 40 pessoas, do centro da cidade até o mar.
Eu embalava meus sonhos, vendo-os próximo a alguma parada, saltarem do veículo em movimento, aguardando que o passageiro subisse, depois saindo correndo e entrando para cobrar a passagem. Eu achava aquilo o máximo.
Coisa de criança, mas que para mim era como um incentivo tipo: “quando eu crescer quero ser um cobrador do dindinho”.
Aos dezesseis anos, comecei a trabalhar em uma empresa famosa da capital, responsável pelo transporte intermunicipal e municipal, a maior empresa gaucha até então.
Seus ônibus em nada se pareciam aos carroções do dindinho, eram de uma frota novíssima, como o são até hoje, enfim, não era o dindinho que povoara meus sonhos de guri, mas fazer o que?!...emprego é emprego.
Minha base era na capital, hora em minha cidade, mas um dia, faltou funcionários para o trecho: Bento Gonçalves via São Vendelino, e lá fui eu.
Estrada de muitos aclives e declives acentuados, o verão não ajudava, fazia levantar do acostamento uma poeira densa e vermelha, um calor de rachar.
Era domingo, pouco movimento, sentado ao lado do motorista falei-lhe dos meus sonhos de guri, de saltar de um carro em movimento, desejo este, que ele se prontificou em ajudar-me a realizar.
Próximo a uma das tantas paradas, perguntou-me se realmente eu queria fazer aquilo, respondi que sim, então ele disse-me que me preparasse.
Lomba abaixo, quando faltavam alguns metros da parada, ele abriu e ordenou:
-Vai!
Posso dizer-lhes que aquilo foi uma tremenda irresponsabilidade daquele profissional.
Primeiro porque estávamos em uma descida forte.
Segundo, desenvolvíamos velocidade relativamente alta para a via, que dirá, para um par de pernas pré-adolescentes.
Terceiro, e o mais dramático, a porta do coletivo abria para fora, e á frente.
Em um flash de juízo, o motorista achou que eu poderia cair sob as rodas do veículo e freou.
Sem aviso prévio, e sem combinar absolutamente nada comigo, ou com a porta.
A esta altura, eu já virado só em perna, morro abaixo, havia sido compelido a alcançar velocidade próxima já a do carro.
De formas que, quando a porta cresceu eu não estava em condições mecânicas, para uma frenagem tão violenta.
Colei na porta, rolando na seqüência por alguns metros, deixando meu uniforme em trapos, e para fechar com chave de ouro, terminando o serviço todo lanhado, com apenas um pé de meus sapatos.
Sem contar, depois na garagem, quando algum motorista vinha tirar onda:
-O Nadia Comaneci, quando tu quiser saltar de um "cata corno" outra vez, é só falar comigo!
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